Até pouco tempo atrás,
a pessoa solteira era discriminada e rejeitada. Quem não estivesse casado era
visto como portador de status social inferior. Havia, portanto, uma forte
pressão na direção do casamento. Sempre que constato esse tipo de pressão sou tentado
a desconfiar das “delícias” do objetivo que se pretende impor. Se fosse tudo
tão bom não seria necessário pressionar tanto!
A capacidade para uma
razoável autossuficiência é uma das mais importantes aquisições do homem
contemporâneo. Ela é fruto do empenho que tanto temos feito na direção do
autoconhecimento e da introspecção. O progresso tecnológico também tem
contribuído para que as nossas horas solitárias sejam passadas de modo
agradável e rico. Com tudo isso, é natural que muitos de nós prefiramos ficar
sós a estar mal acompanhados. Maus casamentos, suportados apenas em razão das
inseguranças e medos de se enfrentar um futuro incerto e eventualmente
solitário, estão com os dias contados.
As relações ricas,
plenamente gratificantes, baseadas no respeito mútuo, na compreensão e no
desejo profundo de contribuir para que a pessoa amada seja o mais feliz
possível continuarão a existir e a florescer como vida em comum. Isso, desde
que não existam impedimentos externos comprometedores (filhos de relacionamentos
anteriores com atitude destrutiva, graves dificuldades financeiras e
divergências práticas ou filosóficas), que podem minar as bases da aliança
afetiva. Mas quantos são esses casamentos? Uns 10%? Talvez nem isso.
O que está ocorrendo, a
meu ver, é uma importante modificação nas pessoas capaz de levá-las a olhar
melhor o fenômeno do amor e a instituição casamento. Como não estão mais
desesperadas para se unir a alguém a qualquer custo, podem, em primeiro lugar,
compreender que o amor é uma coisa e o casamento é outra.
O amor é uma sensação
de paz e aconchego que sentimos quando estamos junto de uma pessoa, que, por
inúmeras razões, se tornou especial e única para nós. O casamento é uma
sociedade civil complicada, ultimamente mal sucedida e geradora de conflitos.
Ele terá de ser olhado à luz da razão e não do ponto de vista do amor. É lógico
que ninguém vai querer morar junto com alguém que não provoque prazer
romântico. Mas não é só isso o que determinará o estabelecimento da sociedade
conjugal.
Dificuldades práticas
de convívio levam as pessoas, segundo creio, a estabelecer um convívio em
termos de namoro: cada um vive em sua casa, com suas finanças próprias, seu
estilo de vida e seus problemas individuais. Se as dificuldades objetivas não
existirem e se houver metas em comum que justifiquem o estabelecimento do
vínculo societário, aí então as pessoas irão estabelecer matrimônio. É o caso,
por exemplo, dos casais que efetivamente desejam ter filhos e patrimônio em
comum. A frequência de casamentos será muito menor, mas a qualidade deles
tenderá a ser melhor. E quem não quiser esse tipo de vida ficará sozinho e
buscará a felicidade por outros caminhos.
Flavio Gikovate.