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quarta-feira, 11 de outubro de 2017

LOUCURA

                                              


A psicologia nunca poderá dizer a verdade sobre a loucura, pois é a loucura que detém a verdade da psicologia. 










Michel Foucault.

domingo, 22 de janeiro de 2017

REGRAS?








Filosofar é saber que não precisamos comer lentilhas no réveillon e peru no Natal porque todos comem. Filosofar é optar por sua cor favorita mesmo sabendo que outra cor está na moda. Filosofar é saber que não precisamos aparentar 20 anos aos 30 ou aparentar 30 aos 40. Filosofar é saber que sempre somos crianças quando o assunto é amor. Filosofar é saber que às vezes é preciso mandar ir à merda mesmo. Filosofar é saber que nada na vida é realmente do jeito que nos ensinaram. Filosofar é saber que o mundo não vai acabar porque não estamos usando o sapato da moda e que um pouco de intelectualidade evitaria algumas faturas altas do cartão de crédito.
Filosofar é saber que felicidade nada tem a ver com cumprir metas. Cumprimos metas para substituir a felicidade que não sentimos. Filosofar é apreciar uma instigante comida conceito, mas saber que quando a fome bate para valer, um bom bife acebolado pode ser a grande resposta. E que pão com ovo não é coisa de pobre. É coisa de gente com apetite. Filosofar é saber que o amor é a grande solução para a vida, que desconstrói todas as outras soluções.
Filosofar é tirar o telefone do gancho para ligações inoportunas. Ser bom é diferente de ser bonzinho. Filosofar é saber guardar o melhor do seu veneno para mentes instigantes. Filosofar é usar um vestido preto em pleno verão. Não para contrariar. Porque está com vontade de usá -lo. E não venham me dizer que vestidos pretos de tecidos vaporosos são menos frescos do que colantes shortinhos jeans.
Filosofar é saber desviar do caminho trilhado pela boiada.
Obvious



sábado, 21 de janeiro de 2017

O QUE É O MUNDO?

Segundo Schopenhauer,
Para ele paciência, ilusão, fantasia. Essa  é  a verdade que se deve extrair da doutrina Kantiana, acreditava Schopenhauer.

Nós temos sonhos, não talvez toda a vida um sonho? Mais precisamente: existe um critério segundo para distinguir sonho e realidade, fantasmas e objetos reais?


A vontade de viver tem em si mesma o seu próprio fim.
Schopenhauer.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

AMOR GENUÍNO

Há tempos, muitos escrevem sobre o amor; tarefa difícil, pois sempre faltam palavras para expressá-lo. Mas onde e como começa tal sentimento?! Mantê-lo é possível?

Depois de cada voo, é em casa que estão nossos melhores amigos – nosso amor genuíno – esperando-nos.” Rita L.M.
Um mito, um mistério ou algo que incomoda por não conseguir entendê-lo: esse é o amor? Não há palavras para conceituar, descrever, relatar. Ele – o amor - nasce da simplicidade do olhar, do sorriso, do gesto. Só o percebe quando se aprende a valorizar as qualidades, a admirar as atitudes, a querer estar sempre perto, a sentir saudade de alguém.
É do amor que nascem outros sentimentos tão nobres quanto; afinidades imanentes. Por vezes arrebatador, por vezes doído (ou doido?), por vezes feliz, por vezes angustiante, e sempre indefinível. Misturas, antíteses, paradoxos. Alguns dizem que ele acaba, termina; outros, que não. Na verdade, ele só se transforma. Para o filósofo Heráclito de Éfeso, ninguém entra no mesmo rio uma segunda vez, pois quando isto acontece já não se é mais o mesmo; assim como as águas que já serão outras. Assim é o amor: os vários tipos, os vários jeitos, os vários momentos. Ninguém ama igual o tempo todo, mas ama; e ponto.
Tão abstrato ao senti-lo e tão concreto quando surge o risco e/ou a perda de alguém. O chão abre sob os pés, faz o coração bater descompassado, sufoca. É um querer sem ter como controlar ou ir contra, é uma fera que cresce para defender a cria, é uma força que salta às entranhas, é um trocar de lugar só para a pessoa amada não sofrer, é o coração batendo literalmente em outra morada.
Mas quando se sabe que o amor está ali – à disposição - , esquece-o num canto qualquer do lar. Sim, a maior manifestação de amor se dá entre os familiares; pessoas que convivem diariamente sob o mesmo teto, dividindo as mesmas dificuldades, tristezas, angustias, conquistas, vidas. O que era o seu orgulho, a sua admiração, a sua maior preciosidade, agora o é de outrem. É bastante comum as pessoas rebaterem frases como: “ Nossa, seu filho é um menino de ouro” com “Fique com ele algumas horas para ver se achará isso mesmo”. Ou: “Sua mulher é muito carinhosa, prestativa demais” com “Quer para você? Não aceitarei devolução”. E ainda: “Seu marido parece ser tão bom, que sorte a sua” com “Sorte? É porque você não vive com ele”.
O amor foi dar uma voltinha logo ali, ou a certeza – autoconfiança - de que ele não irá embora é tão grande que o deixa assim, sem o aparente amor? Já disse algum poeta em algum lugar que o amor é como uma flor, precisa de cuidados; cultiva-se. Senão vem alguém, pega a plantinha já sem vida jogada no canto, remove a terra, rega e terá o mais belo perfume e imagem.
O amor genuíno é o familiar: “Sim, meu filho é minha maior riqueza” – não importa as rebeldias dele, pois tudo é fase; “ Minha mulher é muito mais que isso que você está vendo, foi por esse e tantos outros detalhes que eu a escolhi” – lembre-se: você também é insuportável por várias vezes, ranzinza; “ Parece bom, não, meu marido é o melhor homem desse mundo!” – você o escolheu, lembra?!
É , querer dizer o amor em palavras é algo realmente impossível, porém a maior busca deve se ater ao despertar diário desse único – talvez o maior de todos – sentimento. Quando o amor começa na própria vida e se estende as outras que foram escolhidas para dividir os melhores e piores momentos, tudo passa a fazer mais sentido e se conquista a nobreza de se viver com leveza.
O amor é libertário. Não é exigente nem tão pouco perfeito; logo, não o seja também. Como disse João Guimarães Rosa, “...o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou.”
O amor muda ao passo que as pessoas mudam. Se elas mudam cultivando sabores, jamais colherão dores.


obvious

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

SUICÍDIO CRESCE NO BRASIL

Aumenta o número de brasileiros, sobretudo jovens, que tiram a própria vida. No Brasil, nos últimos anos, as mortes por suicídio de pessoas entre 15 e 24 anos cresceram 1.900%.
Temos um problema sério pela frente: no Brasil, em 20 anos, o número de mortes por suicídio cresceu 1.900% na faixa etária de 15 a 24 anos. Com tal incidência, representa a terceira principal causa de morte de pessoas em plena vida produtiva. As consequências atingem também a família. Pesquisas mostram que cada morte afeta profundamente e por tempo prolongado  pelo menos cinco pessoas.
As estatísticas revelam a extensão de um problema que merece a nossa reflexão. Nos últimos 40 anos, as taxas de mortalidade mundial por suicídio subiram cerca de 60%. Nada menos do que um milhão de pessoas morrem por ano por essa causa, uma morte a cada 40 segundos, praticamente todas elas em consequência de depressão ou de algum transtorno mental.
Estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) sinalizam que haverá mais de 1,5 milhão de vidas perdidas por esse motivo em 2020, representando 2,4% de todas as mortes. A OMS também registrou que permanece a tendência de crescimento das mortes entre os jovens, especialmente nos países em desenvolvimento.
Diante da gravidade do assunto, o tema há alguns anos passou a integrar as políticas de saúde pública em diversas partes do mundo. Com a criação de programas de prevenção, países como os Estados Unidos já estão conseguindo reduzir o número de casos. “Isso mostra que a melhor conduta é criar redes de proteção para dar o suporte necessário às pessoas em risco e suas famílias”, opina Humberto Corrêa, psiquiatra e chefe do Departamento de Saúde Mental da Universidade Federal de Minas Gerais.
Em 2006, o governo brasileiro formou um grupo de estudos para traçar as diretrizes de um plano nacional de prevenção do suicídio, que deve ficar pronto este ano. A promessa é incluir verbas no orçamento de 2008 para colocar essas ideias em prática. “O que existe hoje é apenas uma cartilha destinada a profissionais da saúde”, comenta o psiquiatra.
Reduzir as taxas de suicídio é um desafio coletivo. A sociedade precisa romper com os tabus e se engajar nessa batalha. Apesar de não serem raras as famílias em que alguém não tentou ou morreu, pouco se fala do assunto. A mídia, um poderoso instrumento de educação e conscientização, também se omite sobre essa questão “desgostosa”. “Mas a nossa resposta não pode ser o silêncio. Nossas chances de chegar às pessoas que precisam de ajuda dependem da visibilidade”, prossegue o médico.
Quem pensa em se matar deve saber que mais gente pensa sobre isso e pode ajudar. No final de junho, entre os dias 28 e 30, 80 conferencistas de 16 países se reuniram em Belo Horizonte (MG) para trocar as suas experiências sobre o assunto durante o II Congresso Latino-americano de Suicidologia. “Uma das nossas tarefas é convencer donas de casa, pais, educadores, jornalistas, publicitários, líderes comunitários e de opinião de que o debate sobre o suicídio não é uma questão moral ou religiosa, mas um assunto de saúde pública e que pode ser prevenido. Aceitar essa ideia é o primeiro passo para poupar milhares de vidas”, conclui Humberto Corrêa, que presidiu o evento.
Dicas Úteis:
Leve a sério quando alguém ou um parente diz que a vida não vale a pena e se mostra deprimido. Por baixo disso pode estar a intenção de interromper a vida.
Estudos em diversas regiões do planeta mostram que quase todos os indivíduos que se suicidaram estavam padecendo de um transtorno mental.
A Inglaterra conseguiu reduzir o número de mortes por suicídio com um amplo programa de tratamento de depressão.
No Rio de Janeiro há um serviço especializado para quem perdeu pessoas próximas por suicídio, o Projeto Conviver. Outro começará a funcionar em Belo Horizonte, em Minas Gerais, este mês.


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

AMOR NÃO É APEGO, NEM SOFRÊNCIA

A questão é simples e complexa, segundo os budistas: amor de verdade não dói. Ele inunda o coração e se basta sozinho. Já o apego traz sofrimento, porque guarda dentro de si o medo da perda. Da rejeição. De "ficar sem a pessoa", de "ficar sozinho". O amor não pode ter medo de perder porque não perde nunca – ele existe indiferente da reciprocidade. Existe em si mesmo.
Desde pequenos fomos ensinados a pensar em amor e apego como quase sinônimos, e a encarar com alguma benevolência um ciúme "saudável", ou o medo de perder o amado (a) como prova de que realmente o que se sente é amor. Séculos de literatura, arte e poesia na nossa sociedade ocidental nos moldaram a pensar assim – isso desde as dores do amor romântico do jovem Werther, passando por Lady Gaga,  até os cantores atuais da sofrência. Os budistas lidam melhor com a questão – recomendo palestras do Dalai Lama e da monja Jetsunma Tenzin Palmo sobre o tema. Fácil de achar no you tube.
Sou claro, eu, como a maior parte dos mortais, compreendo racionalmente a diferença entre os dois sentimentos – mas daí a separar apego e amor dentro do coração é outros quinhentos. Lembro-me de ouvir palestras e ler sobre o assunto e literalmente passar por cima dele – afinal, eu entendia a ideia, mas não via como colocar em prática. Era abstrato demais. Algo que só pessoas muito evoluídas espiritualmente ou com décadas de análise talvez pudessem sentir. Mas não. Um dia aconteceu. E foi num sonho.
Parênteses: Alguns dos nossos melhores insights vêm nos sonhos – não levante correndo para engolir um café e correr para o escritório. Tire pelo menos uns 5 minutos para ouvir o que o seu mundo interno tem a dizer quando você dorme e a consciência relaxa.
Anos depois de um término, sonho que recebo uma carta. Uma embalagem com carimbo e selo de algum país distante. Abro o pacote e encontro um casaco cinzento e antigo, com bandeirinhas, selos e brasões de vitórias passadas. Dentro, uma foto minha. E um poema, numa letra e língua que não consigo entender.
No sonho, vestida com aquele casaco de tantas guerras, percebia que era eu quem ele buscava. A pérola invisível, escondida no conteúdo translúcido da concha. E que ele, debaixo de tantos brasões e realizações, de tantas máscaras a que a vida nos obriga a usar para vencer no mundo, também era. The real deal. O czar medroso, generoso e puro que se esconde por trás da armadura, para não doer mais. É, mas não sabe. Nem quer saber. Quando irá acordar, meu deus?
Nunca – diz meu coração. E de repente me sinto aliviada, sem aquele peso. Porque não preciso de mais nada. O que sinto é suficiente – e enorme o bastante para me fazer querer viver muito mais. Ainda no sonho, passo por aquela rua, aquela casa. Fecho as janelas do táxi, fecho os olhos. Deixo ir.
Estou na praia, sozinha. Observo as ondas à noite e contenho meu desejo de me fundir ao céu e mar noturno. Entre os dedos seguro uma, duas, três conchas – as mais bonitas depois da ressaca. Com cada uma delas pesando suave na mão, espero pelo dia em que possa entregar a dele – o amuleto que o protegeria do mundo cão em que ele (sobre)vive. Esse dia não vai chegar, olho para o mar e sei. Mas isso não muda nada. Nem me faz querer nada que não seja pura oferta da vida, do mar. Do mundo.
Querer, querer. Só queremos. Queremos ter tudo – e vivemos presos no medo de perder o que "conquistamos". Escuto as ondas indo e vindo e me sinto livre – ainda estou inteira. Cada vez mais. Nossas memórias passam pelo espelho das águas como flashes, mas não trazem saudade – o tempo-espaço é acessível a qualquer fechar de olhos. A cada onda que se quebra no horizonte.
Os budistas dizem que o todo sofrimento vem do desejo (não sou budista e ainda não atingi o nirvana para interpretar corretamente essa frase), e que o caminho para sair da prisão do apego e da dor é deixar ir. Aprender a se bastar. E ficar genuinamente feliz com o crescimento do outro – mesmo que ele tenha escolhido viver longe de você.
Fácil falar, não é? Mas eu juro que num segundo, dentro de um sonho, foi fácil – e a partir daí foi ficando cada vez mais natural.
Porque amor de verdade não precisa do outro. Afinal, o outro está sempre contido dentro do amor. Não como um fantasma – mas como uma constância que faz nosso coração bater mais rápido em cada respirar de maresia, em cada linha de um poema. E não, não dói. A felicidade do outro passa a ser sua também, porque é impossível sentir algo que te completa e expande tanto e ser mesquinho, querendo aprisionar o que só existe quando há entrega – e para haver entrega é preciso haver liberdade.
Amor de verdade é gratuito e autossuficiente, eterno no tempo como uma onda sonora que se propaga infinita, repercutindo no espaço. No espaço, em algum lugar, nós. Lembra?
Não, você não lembra. Mas não faz mal. Eu lembro por nós dois.
Obvious

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

SOLIDÃO À DOIS

Com sorrisos cada vez mais raros e sem poder de contagiar; com impaciência ao invés de brincadeiras e um torturante silêncio onde deveriam existir palavras e palavras, cada vez mais pessoas vivenciam a solidão a dois, termo que ouvi pela primeira vez na voz de Cazuza, em “Eu queria ter uma bomba”, música do Barão Vermelho.
São olhares vazios, pensamentos dispersos e uma sensação enorme de “tanto faz”. Na mesa do restaurante, o casal insiste em prestar atenção exclusivamente às telas de seus celulares; enquanto caminham, nenhuma palavra sai de seus lábios, e na despedida um beijo frio. No sexo, por não exigir diálogo, as coisas fluem um pouco melhor. Mas ainda assim é insuficiente.
O relacionamento, contudo, é mantido. Talvez por conveniência ou talvez porque essa realidade basta. Existem pessoas que se contentam com o básico e outras que temem a solidão mais do que qualquer outra coisa. Elas não percebem, porém, que estão sozinhas, apesar de terem uma companhia.
Parece contraditório, mas não é. Soa como se as pessoas, com medo da solidão, resolvessem ficar sozinhas juntas. Assim é formada uma multidão de almas vazias, de corações partidos e mentes desencontradas.
Elas se sentem perdidas da mesma forma. Estão a sós com seus pensamentos, embora segurem uma mão. Sonham acordadas, mas preferem não falar sobre isso. Passam horas tentando saber porque aquelas pessoas malucas escrevem poemas e canções.
Ficam inconformadas por aqueles que dizem que até o céu muda de cor quando estão amando. "Porra, o céu é azul. Sempre foi e sempre será", concluem. Mas é mentira. O céu é da cor que querem aqueles que não sentem uma solidão esmagadora, estejam acompanhados ou não.
E assim assistimos relacionamentos começando e terminando dia após dia. Não haveria problema nenhum nisso, afinal, nossa existência é efêmera, e somos feitos de dúvidas e erros. O problema é assistir o seu relacionamento começar e acabar e ainda assim não aprender nada de valioso com ele. E sabe por que não? Porque vocês não estavam juntos. Apenas estavam sozinhos no mesmo lugar.
Obviuos


terça-feira, 14 de julho de 2015

Só Chegamos a Ser uma Parte Mínima do que Poderíamos Ser


A atividade de comprar conclui em decidir-se por um objeto; mas é também antes uma eleição, e a eleição começa por perceber as possibilidades que oferece o mercado. De onde resulta que a vida, no seu modo «comprar», consiste primeiramente em viver as possibilidades de compra como tais. Quando se fala de nossa vida sói esquecer-se disto, que me parece essencialíssimo: a nossa vida é em todo o instante e antes que nada consciência do que nos é possível. Se em cada momento não tivéssemos à nossa frente mais que uma só possibilidade, careceria de sentido chamá-la assim. Seria apenas pura necessidade. Mas ai está: esse estranhíssimo facto da nossa vida possui a condição radical de que sempre encontra ante si várias saídas, que por serem várias adquirem o carácter de possibilidades entre as quais havemos de decidir. Tanto vale dizer que vivemos como dizer que nos encontramos num ambiente de determinadas possibilidades. A este âmbito costuma chamar-se «as circunstâncias».

Toda a vida é achar-se dentro da «circunstância» ou mundo. Porque este é o sentido originário da ideia (mundo). Mundo é o repertório das nossas possibilidades vitais. Não é, pois, algo à parte e alheio à nossa vida, mas que é a sua autêntica periferia. Representa o que podemos ser; portanto, a nossa potencialidade vital. Esta tem de se concretizar para se realizar, ou, dito de outra maneira, chegamos a ser só uma parte mínima do que poderíamos ser. Daí que nos parece o mundo uma coisa tão enorme, e nós, dentro dele, uma coisa tão pequena. O mundo ou a nossa vida possível é sempre mais que o nosso destino ou vida efetiva.


Ortega y Gasset,
 'A Rebelião das Massas'

sexta-feira, 3 de julho de 2015

A ARTE DE SABER DIZER ADEUS.


Às vezes, tudo que precisamos é saber dizer adeus. A vida se resume basicamente em deixar ir. É impossível seguir em frente com cargas desnecessárias, com bagagens que não nos pertencem. Já temos as que nos bastam, então para que o peso morto? É preciso esquecer os velhos caminhos, os velhos pensamentos, e às vezes, infelizmente, as velhas pessoas.

Não me entendam mal, canso de dizer que somos um conjunto das pessoas que tocamos e fomos tocados, mas ninguém é insubstituível. Absolutamente ninguém. A gente vai vivendo e aprendendo que algumas pessoas, inevitavelmente, se vão. E não há nada que possamos fazer para de alguma forma as trazer de volta. E não falo sobre ir como um eufemismo para morte, falo de ir ao sentido de elas continuarem com suas vidas, e às vezes, conosco não mais fazendo parte da mesma.
Tentar traze-las de volta é tão inútil quanto tentar usar uma roupa que não nos serve mais, que ficou pra trás, junto com o tempo em que pesávamos 5 kg a menos. Não combina, não serve, falta algo. É tentar encaixar algo em um lugar o qual não pertence, e esperar um grande resultado. E tudo que acabamos recebendo no fim são decepções procedentes das expectativas criadas. Existem situações, e situações, mas uma vez que algo foi embora, que a vida seguiu seu curso, não volte para trás. É certo que se deve ter a sabedoria necessária para saber diferenciar o não é a hora com o nunca será a hora. Mas uma vez que algo se perde com tanta força, acredito não ser passível de retorno.
É tão necessário saber a hora de soltar a linha, de seguir, de deixar para trás tudo que te prende e te entristece. Tudo que pesa na sua vida e nas suas costas. Desejo aprender dia após dia a arte de deixar ir. Pois como eu disse há pouco, algumas coisas não retornam. E desejo mesmo que não retornem. Quero o novo, o desconhecido. Não quero algo que me leve aos mesmos caminhos de outrora. Caminhos difíceis, caminhos incertos. Eu quero o que é novo, mas o que é concreto. Chega de esperar retornos, chega de esperar confissões que não existem, chega de esperar que as coisas voltem a ser como foram um dia. Por que daqui a um minuto, nada mais é como já foi antes. E isso, isso é irremediável.
Será?
Obvious.




terça-feira, 19 de maio de 2015

MULTIDÃO E A SOLIDÃO

É um erro acreditar que a experiência de se relacionar superficialmente irá gerar experiência para um relacionamento duradouro. Relacionar-se superficialmente ensina a ser cada dia melhor nisso, enquanto a experiência de fazer durar só se adquire fazendo durar.






Somos tão livres como nunca fomos. Pode-se escolher carreira, viagens, hobbies, pessoas. Acima de tudo pessoas. Pode-se trocar de carreira, de hobbies e de pessoas, o tempo todo. Por que o resultado disso não é maravilhoso? Por que os cidadãos da era tinder são tão solitários? Por que os pregadores do desapego nas redes sociais parecem tão felizes e divertidos por lá e na realidade estão em desespero, viciados em remédios? E de onde foi que eles saíram?
Estas pessoas são solitárias, não por que não socializem, não saiam com os amigos, não se divirtam. Elas fazem tudo isso e ainda têm um tinder que bomba. Mas não criam laços. Todas essas coisas e pessoas (excetuando um bom amigo ou outro) são efêmeras e desaparecem quando se está doente ou sem dinheiro. Puf!
O trabalho do sociólogo polonês Zygmunt Bauman nos emprestou as palavras para falarmos desse fenômeno social que estamos vivendo.
As explicações sobre a atual liquidez de tudo vieram a calhar, para aqueles que têm a coragem de admitir e que têm interesse no que se passa ao nosso redor. Em trabalhos como: “modernidade líquida” e “amor líquido” encontram-se temas chave que nos ajudam a nos situar no caos moderno. Tais como: a perda de espaço e tempo implicados pelo avanço tecnológico, a fragilidade dos laços humanos, a substituição de relações presenciais por on-line e etc.
Mas este artigo não é para falar de Zygmunt e sim para entendermos através do embasamento que seu trabalho nos oferece, como nos tornamos fabricantes de solidão e legitimadores da mesma.
Quando falo do que “vivemos hoje”, não é por empatia com tempos passados, falo do fenômeno social ocorrido como consequência de avanços tecnológicos e culturais, principalmente a ideologia moderna da “liberdade”. A ideia de ser livre e de poder fazer o que quiser, a desconstrução de valores, que agora são extremamente relativos.
Você começa uma família se quiser e quando quiser, você tem filhos se quiser, você viaja para onde quiser, você não precisa se relacionar com o sexo oposto, você é livre! Estamos todos inseridos na cultura do respeito às diferenças. E tudo isso são avanços inegáveis, mas ainda não estamos no paraíso por quê?
Todos os nossos avanços vieram acompanhados de evoluções tecnológicas que nos tiraram a noção de espaço e tempo interligados, como disse Bauman: “O tempo se tornou dinheiro depois de se ter tornado uma ferramenta (ou arma?) voltada principalmente a vencer a resistência do espaço: encurtar as distâncias, tornar exequível a superação de obstáculos e limites à ambição humana.” (BAUMAN, Modernidade Líquida, 2001, p.130)
Está dada a largada então, para a conquista de espaço no menor tempo possível e os competidores são, as um dia crianças, ensinadas que podiam ser o que quisessem. E isso é o que importa agora, sucesso financeiro, aquisição de espaço, ambição. Laços de afeto e a espiritualidade são complementos necessários na vida de um cidadão moderno, saudável e bem-sucedido, mas apenas complementos. E é muito bom que todos tenham esses complementos, assim como carimbos no passaporte. E o ideal é que sejam colocados em um futuro seguro e incerto (porque nada é certo), onde não possam afetar suas prioridades de carreira e dinheiro.
É preciso um espaço só seu para se concentrar nas prioridades, para focar e competir no dia a dia com máxima eficiência. Cria-se uma bolha.
E de dentro das bolhas do individualismo olha-se para fora, para uma imensidão de possibilidades. As redes sociais disseminam a sensação de que há uma infinidade de pessoas a nossa volta, todas legais e felizes, tentando parecer mais bonitas e mais felizes que outros. Todas postando seus momentos de alegria e sucesso. Cria-se um ideal inalcançável, pois é atualizado o tempo todo nas redes. Então cá no nosso dia a dia como escolher alguém?
Com uma escolha feita parece-se estar perdendo tanto! Como amar alguém e perder as experiências maravilhosas com as pessoas maravilhosas que lotam o facebook e o instagram?
Além disso, as pessoas presenciais são humanas e falhas, dão trabalho e nunca correspondem ao ideal disseminado pelas redes. E aí é que são descartadas e trocadas por outras. Sempre na compulsão de tentar de novo, de achar a pessoa certa, que “cabe no sonho”, como disse Cazuza. É muito fácil dizer que não deu certo e se desprender de responsabilidades na tentativa, dizer: “é a vida”.
E volta-se para casa só e começa-se tudo de novo amanhã.
Fazemos-nos todos descartáveis e reclamamos quando somos descartados, reclamamos da solidão dentro da bolha. Coloca-se a culpa num mundo louco e insensível, quando nós somos o mundo. E a coisa real que todos compartilhamos no fim das contas é a solidão. Ninguém está realmente lá, todos estão indo e vindo. Bauman explica o fenômeno dos laços frouxos e repetitivos que fazemos:
O cidadão de nossa líquida sociedade moderna — e seus atuais sucessores são obrigados a amarrar um ao outro, por iniciativa, habilidades e dedicação próprias, os laços que porventura pretendam usar com o restante da humanidade. Desligados, precisam conectar-se... Nenhuma das conexões que venham a preencher a lacuna deixada pelos vínculos ausentes ou obsoletos tem, contudo, a garantia da permanência. De qualquer modo, eles só precisam ser frouxamente atados, para que possam ser outra vez desfeitos, sem grandes delongas, quando os cenários mudarem — o que, na modernidade líquida, decerto ocorrerá repetidas vezes. (BAUMAN, Amor Líquido, 2004, p.6)
As consequências da liberdade são assustadoras. Ela é um fenômeno que a maioria ambiciona entender, uma fonte de prazeres e dores de que ninguém abre mão. Talvez todos pensem entender a liberdade, pois têm um conceito individual da mesma, mas ela está acima das ideias.
A liberdade é acima de tudo ambígua. Zygmunt diz que nenhuma sociedade conseguiu ainda o equilíbrio entre segurança e liberdade, se estamos seguros somos escravos e se estamos livres, não temos segurança. Estamos mais para o segundo caso, somos livres, mas temos tudo líquido a nossa volta, nada seguro.
E quem vai ter a coragem de construir um relacionamento seguro abrindo mão da sua liberdade pessoal? Esta pseudo-liberdade de fazer tantas coisas que não darão frutos e que oferece momentos de inserção na ideia atual de felicidade.
E ainda, quem serão os mais que corajosos a investir em algo sólido, com laços afetivos, confiança, lealdade e durabilidade, com dores e prazeres a longo prazo, quando o resto do mundo irá considerá-los fora de moda e sem ambição?
Talvez, por isso, é que nem mesmo pessoas totalmente conscientes dessa realidade conseguem criar laços duradouros, afinal, é suicídio social ser fora de moda e sem ambição.
E como diz Bauman: “Sem humildade e coragem não há amor. Essas duas qualidades são exigidas, em escalas enormes e contínuas, quando se ingressa numa terra inexplorada e não mapeada. E é a esse território que o amor conduz ao se instalar entre dois ou mais seres humanos.” (BAUMAN, Amor líquido, 2004, p.12).
Como já foi dito, os planos de formar família ou mesmo um relacionamento duradouro são colocados num futuro incerto e distante, “vou querer quietar um dia”, ouve-se muito isso. As pessoas acreditam estar aprendendo com suas experiências de amores líquidos, ficadas e rolos, para um dia aplicar a um relacionamento que já vem sendo idealizado, mais inalcançável depois de cada experiência, obtida com pessoas defeituosas, de forma que se exige mais e mais daquela que seria a certa.
É um erro acreditar que a experiência de se relacionar superficialmente irá gerar experiência para um relacionamento duradouro. Relacionar-se superficialmente ensina a ser cada dia melhor nisso, enquanto a experiência de fazer durar só se adquire fazendo durar. Sobre isso Bauman diz:
Essa é, contudo, outra ilusão... O conhecimento que se amplia juntamente com a série de eventos amorosos é o conhecimento do “amor” como episódios intensos, curtos e impactantes, desencadeados pela consciência a priori de sua própria fragilidade e curta duração. As habilidades assim adquiridas são as de “terminar rapidamente e começar do início” [...] Guiado pela compulsão de tentar novamente, e obcecado em evitar que cada sucessiva tentativa do presente pudesse atrapalhar outra no futuro... (BAUMAN, Amor Líquido, 2004, p.11)
Toda essa cultura e essa vivência de correr atrás do vento fabricam solidão e não daquele tipo que se precisa de vez em quando, mas de um tipo disfarçado e disseminado, que está nas nossas músicas e filmes, está nas redes e na moda, está no estilo de vida e tem corroído por dentro a fé da humanidade na humanidade.
Quem não viu o primeiro episódio do famoso seriado Americano, Sex And The City, baseado no livro de Candace Bushnell? A narração de Carrie Bradshaw que abre o seriado:
Bem-vinda à época da não inocência [...] Autopreservação e fazer bons negócios são mais importantes. O cupido voou do pedaço. Como diabos vieram parar nessa bagunça? Há milhares de mulheres nessa situação, todos as conhecemos e concordamos que são ótimas. Elas viajam, pagam impostos, pagam 400US$ em um par de sandálias Manolo Blahnik e são solitárias.
Quem não viu o filme Her, e acompanhou a maneira fácil e a gradual com que o personagem Theodore se apaixona por um programa de inteligência artificial, chamado Samantha, criado para ajudar usuários a se organizarem em suas vidas online? A ex-esposa de Theodore diz a ele:
É o que você sempre quis. Ter uma esposa sem o desafio de ter que lidar com algo real.
Se quisermos alterar essa realidade, será preciso parar a corrida em diversos momentos e olhar para o outro, desobrigando-o de ser fantástico, pois ele não é um filme ou seriado, é um ser humano. E o outro ser humano é o único que pode corresponder com a companhia que nós, por natureza, necessitamos.
Desculpe, também não é seu cachorro!
Obvious
 




quinta-feira, 23 de abril de 2015

PATOLOGIAS CONTEMPORÂNEAS: ansiedade, pânico e compulsões.

O MAL DA ROTINA.


De que vale a vida, penso eu, se não arriscarmos, nos entregarmos ao novo? Ter o coração partido e se fechar para um novo amor, permanecer num emprego que te causa infelicidade, mas que garante estabilidade, dormir cedo sempre, nunca se atrasar, ir ao mesmo cinema, frequentar as mesmas praias, estranhar novas amizades: que perda de tempo. Toda revolução sofre um pouco de resistência no inicio - mesmo que a revolução seja mudar de cafeteria ou de marca de sabão em pó - mas pequenas ações podem resultar em mudanças positivas na nossa vida.
Seu Jorge já cantarolava, abençoado por uma melodia de Chico Buarque: "Todo dia ela faz tudo sempre igual/ me sacode às seis horas da manhã/ me sorri um sorriso pontual/ e me beija com a boca de hortelã". Ambos os amantes não pareciam incomodados com a rotina que o casal compartilhava, e a composição não deixa transparecer qualquer desconforto com o cotidiano previsível. Mas e se ela o acordasse um pouco antes para cobrir-lhe de beijos com gosto de... Maçã? Se não sorrisse ao acordá-lo, mas o pegasse desprevenido com cócegas que o fizesse perder o ar de tanto rir? E se ele faltasse no trabalho, um dia que seja, para brindar a vida na companhia da amada?

Gostar de rotina não é algo ruim. Precisamos dela para nortear nossas vidas, dar linearidade ao nosso cotidiano, nos tirando do caos e auxiliando-nos a dar foco às metas. A rotina é a nossa cura da ressaca, nosso mais do mesmo que precisa existir, nossa obediência às regras, nossa submissão ao tempo, nossa dose de normalidade diária.
Sair da rotina, do óbvio, é um tanto doloroso para algumas pessoas. Arriscar-se numa atividade nova, atrasar-se mais que cinco minutos, um feriado no meio da semana (acredite: há quem não goste nem um pouco de feriado que tire da mesmice de uma semana de trabalho) nem sempre é fácil de encarar. Ainda mais pra quem trabalha com o método da agenda: acordar às seis, ler as notícias acompanhado de uma xícara de café - nem muito quente, nem frio, nem morno: acertar o ponto todas as vezes é crucial e rotineiro, por assim dizer - tomar um banho rápido, vestir-se e chegar no trabalho às oito. Nem sete e cinquenta e dois, nem sete e cinquenta e nove, muito menos oito e um. Oito. Trabalhar incessantemente, voltar pra casa (pelo mesmo caminho de sempre), assistir qualquer porcaria na televisão, dormir. Fim de semana é almoçar na mãe, ir ao cinema, voltar antes que escureça dormir.

Pessoas assim não se permitem experimentar algo novo e ousado, por mais simples que seja. Por mais que a mídia tenha explorado e criticado positivamente aquela peça que está em cartaz todas as quartas, não é digno se dar ao luxo de fazer um programa cultural em plena quarta-feira. Amanhã é quinta, dia de labutar. Às oito em ponto. Por mais que delivery de pizza seja prático, rápido e barato, não custa nada explorar os demais restaurantes da cidade, levar a garota ou o garoto para degustar sushi, comida chinesa, tailandesa, ou churrasco gaúcho, que seja. Algo que não venha engordurado dentro de uma caixa de papelão
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Há quem não goste de acampar na praia mas que nunca sequer dormiu dentro de uma barraca e protege-se dos pés à cabeça do sol, da areia e da água salgada que resseca e quebra o cabelo. Tem gente que detesta balada, porque sempre frequentou a mesma casa noturna, que conta sempre com a presença dos mesmos Dj's,  sempre com as mesmas pessoas. Há quem não goste de beber, mas que nunca bebeu, que não goste de redes sociais e que sempre conservou a velha conta de e-mail no Bol., que não goste de chuva mas que nunca sentiu a deliciosa sensação da água refrescando o corpo num dia de calor infernal, que não gosta de música brasileira mas que nunca se arriscou a ouvir os mestres da MPB - e que, inclusive, critica ferozmente o nosso funk mas que dança de forma frenética ao som do pop e do Hip Hop americano que faz apologia às drogas e ao sexo, com letras tão "proibido nas" quanto as do ritmo carioca.
De que vale a vida, penso eu, se não arriscarmos, nos entregarmos ao novo? Ter o coração partido e se fechar para um novo amor, permanecer num emprego que te causa infelicidade mas que garante estabilidade, dormir cedo sempre, nunca se atrasar, ir ao mesmo cinema, frequentar as mesmas praias, estranhar novas amizades: que perda de tempo.
Durante muito tempo fui um pouco assim, e confesso que ainda sou paranoica com horários e rotina, mas estou tentando mudar. Reconhecer que a minha bolha é limitada e que a zona de conforto não nos oferece nada mais que conforto é o primeiro passo. Toda revolução sofre um pouco de resistência no inicio - mesmo que a revolução seja mudar de cafeteria ou de marca de sabão em pó - mas pequenas ações podem resultar em mudanças positivas na nossa vida.
Se o café está bem quente, eu acho bom. Se estiver morno, me incomodo um pouco, mas engulo feliz. Se tiver suco, agradeço: mais um dia sem cafeína. Viver metodicamente é não viver, ou viver pela metade. Você por acaso sabe se existe vida após essa aqui? Melhor não desperdiçar. Hortelã pode ser bom,  mas há uma infinidade de sabores por aí.


 Obvious



quinta-feira, 16 de abril de 2015

O QUE É O TEMPO?



A reflexão filosófica de Agostinho sobre o tempo é uma de suas mais brilhantes análises filosóficas, a qual o torna, embora sendo um pensador medieval, muito mais contemporâneo do que muitos outros da atualidade. O modo como Agostinho expõe suas interrogações com relação ao tempo marca a reflexão ocidental até os dias de hoje.

Questiona Agostinho: “Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei.”²


Agostinho defronta-se com algumas dificuldades principais ao falar sobre o tempo: não podemos apreendê-lo, pois o tempo nos escapa, não conseguimos medi-lo. E também não podemos percebê-lo.